
Tio Sam recomenda: Beba cerveja!
Estive pensando muito a respeito desse assunto. Qual seria a real influência que sofremos da polêmica escola cervejeira americana? Ela realmente existe? Possui ótimos exemplos a se seguir? Eles realmente prezam pela qualidade da cerveja? Qual é o seu posicionamento em relação aos homebrewers? Essa e muitas outras questões passavam pela minha cabeça enquanto brassava uma das minhas cervejas.
De antemão, gostaria de colocar aqui que não defendo ou critico nenhuma escola, ideologia, ou qualquer outro tipo de segmento dentro do movimento cervejeiro. Defendo, sim, a propagação da cultura da boa cerveja e todos os seus adjacentes, como uma maneira de melhorar a qualidade da cerveja que consumimos e mostrar aos grandes produtores que não nos satisfazemos com qualquer coisa.
Creio que a maior influência da escola americana no nosso cotidiano esteja logo alí, no bar da esquina. Estou falando da popularizada American Lager, largamente produzida por praticamente todas as grandes cervejarias do Brasil, e outras tantas pelo mundo. Por possuir um caráter suave e refrescante, essa cerveja se popularizou muito rapidamente em alguns lugares do mundo, principalmente pelo seu baixo custo de produção e "drinkability". O Brasil, obviamente, não é uma excessão, dado seu clima quente que praticamente implora por uma geladinha no copo.
Assim como eu, a maior parte das pessoas que fazem ou apenas consomem cervejas especiais, não gostam, ou pelo menos não incluem esse tipo de cerveja na sua lista "Top 10", em função da falta de complexidade e até mesmo alguns aromas e sabores indesejados muito evidentes nesse estilo de cerveja. Para piorar a situação, as grandes cervejarias brasileiras conseguiram agravar ainda mais essas características, piorando a qualidade das cervejas. Como mencionou o sábio poeta Charlie Papazian (rs) em um dos seus textos: "Os brasileiros são enganados".
Mas será que o que é vendido é ruim em função dos processo de produção ou apenas porque o estilo é ruim mesmo? Será que é ruim porque não segue o estilo a risca, como determina o BJCP, ou o estilo não tem salvação? Bom, para elucidar essa questão devemos recorrer aos livros de história.

Barris de cerveja confiscados e destruidos durante a Lei Seca Americana
Em 1920, os Estados Unidos implantou a Lei Seca, também conhecida como "The Noble Experiment", como tentativa de salvar o país de problemas relacionados à pobreza e violência. A Constituição americana estabeleceu em 18ª emenda, a proibição, a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas. Para o governo americano, todos os males vividos pelo país tinham apenas o álcool como agente causador. Essa lei vigorou por pouco mais de 12 anos, e foi considerada o maior fracasso legislativo de todos os tempos nos Estados Unidos.
O efeito causado pela lei foi totalmente contrário do que era esperado, ao invés de acabar com o consumo de álcool, com os problemas sociais, entre outros, a lei gerou a desmoralização das autoridades, o aumento da corrupção, explosões da criminalidade em diversos estados e o enriquecimento das máfias que dominavam o contrabando de bebidas alcoólicas. O ponto de encontro das pessoas que queriam beber eram os "Speakeasies", bares clandestinos localizados no subterrâneo, com o objetivo de não chamar atenção.
Argumentando que a legalização das bebidas geraria mais empregos, elevaria a economia e aumentaria a arrecadação de impostos, os opositores do então presidente norte-americano Franklin Roosevelt, o convenceram a pedir ao Congresso que legalizasse a cerveja. Com isso, em 1933 é revogada a emenda constitucional da lei seca. O ato de proibição nacional eternizou o nome de várias pessoas, em especial a do grande gangster Al Capone, que comandou o comércio de bebidas alcoólicas em Chicago.
Em função da nova legislação, tendo como agravante a eminente II Guerra Mundial, o acesso aos maltes usados nas produções estava comprometido. Não vendo outra alternativa, os produtores clandestinos passaram a utilizar cereais que estavam a disposição na época. Assim, devido a necessidade da produção de cervejas, passou-se a usar arroz e milho, como forma de compensar a falta de cevada. Isso fere diretamente a tão famosa e seguida Lei de Pureza Alemã, a Reinheitsgebot, lei promulgada pelo Duque Guilherme IV da Baviera, em 23 de Abril de 1516, que institui que na produção de cervejas deve-se utilizar apenas água, lúpulo e malte. Na época as leveduras não eram conhecidas, porém seu uso atualmente não é considerado uma agressão a lei.

Muita comemoração após o fim da Lei Seca Americana
Após o fim da vigência da lei e uma estabilização do mundo pós-guerra, o estilo já havia se popularizado, talvez pelas mesmas características citadas no inicio desse texto. Hoje sentimos o reflexo da Lei Seca Americana nos quatro cantos do mundo.
Pois, bem, esse é um tipico caso onde a necessidade mudou o rumo da história. Creio que partindo desse ponto, devamos pensar melhor antes de analisar esse estilo. Sim, isso não quer dizer que seja uma cerveja ótima, e muito menos que você ou eu somos obrigado a gostar dela. É claro que não! Eu particularmente sou fanático pelas Pilsners da região da Bohemia. Mas uma coisa é certa: É uma cerveja valente! Sobreviveu a todas as adversidades de forma exemplar! Além disso é reconhecida, para os que seguem a cartilha, pelo BJCP como estilo.
Deixando um pouco a American Lager de lado não posso deixar de citar aqui o pioneirismo americano. Eles quebram todas as barreiras quando assunto é experimentar novas possibilidades. Abordei esse assunto em uma conversa informal com Patrik Zanello, mestre cervejeiro da Cervejaria Colorado. Seu irmão e um dos diretores da Acerva Paulista Philip Zanello também estava na roda. Foi unânime: Os caras não tem medo de experimentar! Atualmente podemos conferir um pouco dessa ousadia no seriado The Brew Masters, exibido pela Discovery Channel, onde o proprietário da cervejaria Dog Fish Head, Sam Calagione percorre o mundo em busca de novos ingredientes para utilizar em suas receitas. É fantástico e inspirador! E toda essa ousadia se estende por todos os cantos dos Estados Unidos.

American IPA: Amargor pronunciado e refrescância marcam o estilo
Graças as facilidades que vivemos atualmente, muitos rótulos americanos começam a desembarcar em terras tupiniquíns. Hoje podemos desfrutar de algumas dessas ousadias gringas. Double Porter, Double IPA, e tantas outras "Doubles", Pale Ales, Barley Wines, Old Ales, e várias outras "experiências". Eu particularmente adoro as American IPA's, com seu amargor, refrescância, corpo que, na maior parte das vezes, se equilibram entre sí, deixando-as com um ótimo drinkability, notas florais, cítricas, e tantas outras derivadas dos lúpulos americanos utilizados! São divinas! É claro que isso é apenas uma opinião particular, e que não deve ser utilizada como uma verdade absoluta. Mas o fato é que essa preferência acaba influenciando diretamente nas minhas receitas, das quais 70% são inspiradas na escola americana.
Não quero prolongar mais do já prolonguei, mas esse tenho muito mais a comentar a respeito desse tema, e com certeza farei isso em breve. Não quero com isso ferir os ideiais de ninguém, apenas expor minha humilde opinião a respeito de um tema que as vezes gera grandes embates nas rodas e nas mesas dos bebedores. Creio que todas as escolas possuem sua importância para o movimento, e devemos dar o devido valor a elas. Experimentar e quebrar barreiras é a chave!
E no Brasil? Será que estamos galgando o caminho para uma "Escola Cervejeira Brasileira"? Na minha opinião SIM, mas isso é material para o próximo texto.
Um grande abraço a todos e ótimas cervejas!
Excelente texto!! Me fez repensar várias coisas que tinha como pré-conceito. Obrigado!! Quanto a uma Escola Cervejeira Brasileira, também estive pensando sobre isso... não cheguei a muitas conclusões e vou aguardar seu próximo texto ansiosamente!! Grande abraço, até mais.
ResponderExcluirhttp://blackbrewer.blogspot.com
Claudio,
ResponderExcluiré sempre bom abrirmos nossos olhos para novos horizontes e sem preconceitos. Que bom que vc mudou sua opinião!
Abraço.
Marcus, concordo com você plenamente em relação a escola americana: os caras não tem medo de criar. E vejo muito isso aqui no Brasil com o uso de novos ingredientes nas cervejas da Colorado ou a Bodebrown fugindo das restrições de estilos e inovando nas cervejas.
ResponderExcluirEspero que assim surja uma escola brasileira, com a nossa capacidade de criatividade e usando o jeitinho brasileiro de uma maneira positiva, quebrando barreiras na fabricação de cerveja.
Nicholas,
ResponderExcluirtodos nós contribuimos e muito para a criação de uma nova escola cervejeira, e não tenho dúvidas que o Brasil ainda se despontará no cenário mundial como escola influente. Quem sabe um dia o BJCP não cria um novo grupo em sua cartilha incluindo as nossas cervejas? Bom, é possível.
Abraço.